sábado, 15 de julho de 2017

O seu vazio

Na primeira vez em que fiquei bêbada, você estava comigo. A gente andou 40 minutos de ônibus até aquela praça famosa por ter a melhor vista do pôr do sol e, convenhamos, foi mais por bobeira do que por qualquer outro motivo. O dia estava entre um dos mais nublados, cinzas e frios daquele mês. Eu deveria ter ouvido a minha mãe, ficado em casa, me embrulhado em baixo dos cobertores e assistido a Netflix, mas não fiz nada disso. Bati boca com ela, sai apressada pelo portão de casa e fui encontrar você e mais uma amiga. Lembro que a senhorita foi a primeira a notar a mulher com o carrinho de bebidas lá no fundo da praça, nessa hora eu fotografava, sempre fotografando... Você não precisou de muito para nos convencer a rachar duas garrafas daquele líquido doce e amargo que me fez franzir o rosto no primeiro gole, mas eu estava animada e achando tudo meio engraçado (ô adolescência besta), então bebi mais um gole, e outro e outro, e quando vi estava em pé olhando o horizonte e gritando que as coisas estavam meio fora do lugar. Vocês duas começaram a rir, principalmente você, que sempre se achou a verdadeira crítica de álcool. Tu me disse que eu era fraca demais para essas coisas, que a quantidade que ingeri não era praticamente nada, mas sei que naquela época você sabia tão pouco sobre bebidas quanto eu. Depois daquele dia eu parei, é raro sair com amigos já na intenção de beber e Coca-Cola ainda têm um gosto melhor pra mim do que qualquer uma dessas besteiras. É eu parei, mas você não. 

Não me leve a mal, essa foi uma boa lembrança por certo tempo, mas não sei dizer se ainda é. Sempre quis escrever tal história, mas planejava fazer isso de uma forma diferente. Talvez, só talvez, você tenha me mostrado um pouquinho de quem era de verdade naquele dia e me revira o estômago pensar que só notei isso agora. 

Depois disso você começou a frequentar essas festinhas que o pessoal marca no Facebook, e ok, eu não julgo a forma com a qual as pessoas procuram se divertir, por mais que nunca queira entender a graça de sair de casa para ir a um local lotado, ouvir música ruim, conversar com uma galera alterada e desinteressante e ficar com mais pessoas do que consegue contar nos dedos, só pelo simples prazer de salvar mais números na sua lista de contatos. Minha psicóloga diz que eu é que tenho gostos peculiares para minha idade, mas qual é? Conhecer lugares novos, fotografar, tomar sol no parque e reunir o pessoal pra comer cachorro-quente e assistir filme aqui em casa é tão incomum assim? Você curtia. Me mandava fotos dos lugares de São Paulo em que a gente ainda não tinha ido, reunia todo mundo na sua casa para tentar copiar as coreografias do Daniel Saboya, lotava minha galeria de fotos com os estados para os quais íamos viajar juntas e compartilhava qualquer noticia nova sobre a Beyoncé comigo. As vezes eu ficava irritada, meu celular sempre tocando por sua causa. Mas agora, faz dias desde a última vez em que nos falamos, uma conversa que provavelmente era sobre algum assunto escolar. Louco como sinto falta disso. Atualmente as palavras festa e social não saem da sua boca.

Tu era doce sabia? Uma boa pessoa. Doce, embora grosseira por vezes, meio preguiçosa, meio desistente. Volta e meia você ficava brava comigo, dizia que eu separava meus amigos em grupinhos, que me esquecia da sua existência, que te cortava das coisas. Mas nunca foi isso. Eu nunca tentei te magoar propositalmente. Só que a tua carência por atenção me afastava ocasionalmente. Me pergunto se é por isso que agora você abaixa o tom de voz quando passo perto das suas conversas, que inventa algum assunto aleatório quando pergunto o que é que tá rolando, que fala um monte de bobagem sobre mim assim que viro as costas, na intenção mais do que clara de me fazer sentir mal. E olha, você conseguiu, durante um tempão. Talvez até ontem de manhã. Mas não vai mais conseguir. 

Eu nunca vou entender porque você se tornou o que é hoje. Tu tinha um montão de sonhos, era ambiciosa e possuía a alma mais empreendedora que eu já vi (queria ter te dito isso, mas já não dá). Era bonitinho te ver planejando como alcançar seu objetivos, aquele brilho sutil nos olhos de quem se empolga fácil com as coisas. Mas você perdeu tudo o que te tornava boa e nem ao menos sabe disso. Continua com essa história de passar no vestibular esse ano, aposto que correr atrás de festas em plena quinta-feira vai te ajudar com isso. Uma amiga minha disse para eu tentar entender o seu lado, e sim, eu sei dos seus problemas pessoais e da sua família não tão tranquila assim. Mas ter problemas não deveria afetar a forma com a qual tratamos as pessoas (surpresa meu amor, isso todo mundo têm) e nem as pessoas deveriam aceitar serem colocadas pra baixo porque alguém passa por uma fase ruim. Eu entendo de fases ruins, e não vou te dar o direito de piorar a minha. Segue deitando a cabeça tranquilamente no travesseiro, totalmente satisfeita com quem é e com o que faz, se seu caráter é tão podre assim, o problema nunca fui eu. 

Ainda vou sentir sua falta durante um tempão e vai continuar doendo saber que a amizade que imaginei levar por anos pode nunca ter existido. É tão complicado abrir mão das poucas certezas que tínhamos né? Mas saiba que não culpo seus novos amigos, novos gostos e novo estilo de vida, afinal, não acredito que alguém ou algo tenha poder a ponto de mudar nossa essência. Ouvi em algum lugar que qualquer coisa ruim só serve como faísca, desperta o mal que já existia dentro da gente, mas não o cria. Quanto a mim? Tenho que largar mão dessa mania besta de me apegar até ao que me adoece. Através dessas palavras te deixo ir de vez e abro mão de qualquer sentimento de culpa. As lembranças que tínhamos juntas vão começar a parecer inventadas e essa dorzinho no peito que as vezes me pega de madrugada uma hora ou outra vai ter outro motivo que não você, e nesse momento seu veneno já vai ter escorrido do meu corpo. 

Olha, sei que temos virado completas estranhas uma para outra, porém aceite esse último puxão de orelha: não sei qual tamanho do seu vazio, mas você está preenchendo ele dá forma errada.

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